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O aviso romântico da tempestade_The romantic warning of the storm


28 jan

Não é mais o vento que conhecemos – aquele que balançava a rede e trazia cheiro de mangueira madura.
É outra coisa agora.
Algo que se levanta das entranhas do tempo com dentes de aço e um rugido de planeta partido.
Cento e quarenta, cento e sessenta quilômetros por hora – números que não dizem nada até você ver a árvore de cem anos se curvar como uma vara verde,
até você ouvir o telhado cantar sua canção de despedida em dó menor,
até você sentir a casa respirar, expandir, tremer nas juntas como um animal assustado.

A madrugada será varrida.
Não limpa, não purificada – varrida.
Como quem apaga um quadro com a manga, como quem joga fora uma história mal contada.
O que vier depois não será a mesma madrugada. Será outra. Com cicatrizes no ar, com memória de destruição nos galhos quebrados.

E a chuva – ah, a chuva!
Não é a chuva dos poetas, aquela que cai mansinha para rimar com saudade.
É uma chuva fria, forte, vertical como uma sentença.
Cai com vontade de furar o solo, de atingir o centro da terra, de lavar até os ossos dos mortos.
Cai como se fosse a última. Como se soubesse que depois dela só haverá silêncio ou fogo.

Eles ativaram o Plano de Emergência.
Gosto dessa palavra: emergência. Do latim emergere – “sair das águas”, “vir à tona”.
É disso que se trata: de emergir. De deixar de ser o que estávamos para ser o que sobreviver.
Há protocolos, papéis carimbados, sirenes com vozes gravadas.
Há homens sérios em salas com mapas e telas piscantes.
Há uma logística do fim do mundo, meticulosa e burocrática.
Até o apocalipse tem sua papelada.

Fecharam as escolas.
As carteiras vazias esperam.
O quadro-negro guarda a última equação não resolvida.
No corredor, um lanche esquecido embrulhado em papel filme.
As crianças estão em casa, ouvindo o barulho do mundo desabar e pensando, com a lógica feroz dos pequenos:
“Se fecharam a escola, deve ser sério mesmo.
Os adultos só fecham a escola para coisas muito importantes ou muito perigosas.”
E esta tempestade é ambas.

A ordem é: protejam-se!
Mas como nos protegemos do que vem de dentro e de fora ao mesmo tempo?
Como erguemos muros contra o vento que já habita nossos pulmões?
Como fechamos janelas para a chuva que já corre em nossas veias?

Protejam-se.
Enfiem-se nos porões da carne.
Fechem as portas dos ossos.
Tape os ouvidos com a cera das memórias boas.
Ajoelhem-se no chão mais firme que encontrarem – que pode ser um amor antigo, uma palavra guardada, a mão de um filho no escuro.
Porque o vento de cento e sessenta por hora não quer apenas derrubar árvores.
Quer derrubar certezas.
A chuva forte não quer apenas inundar ruas.
Quer inundar os porões da alma onde guardamos o que não queremos ver.

Eu lhes digo: esta tempestade é romântica.
Sim, romântica no sentido mais obscuro e verdadeiro.
Ela não vem apenas para destruir, mas para revelar.
Para mostrar que debaixo do asfalto há terra.
Debaixo da calma há pânico.
Debaixo da vida há morte, e debaixo da morte há mais vida, brava e teimosa.

O vento escreve cartas de amor furiosas nas paredes.
A chuva canta uma ópera sobre tudo que já perdemos.
E no centro do furacão, há um olho – um silêncio redondo e perfeito onde tudo para.
É ali, no olho da tempestade, que você se lembra do seu próprio nome.
Que você vê, claramente, o que importa e o que é apenas vento passando.

Então protejam-se, sim.
Mas protejam também a chama frágil que há em vocês.
Aquela que treme, mas não se apaga.
Porque depois que os ventos de cento e sessenta passarem,
depois que a chuva forte tiver dito tudo o que tinha a dizer,
alguém terá que acordar e olhar o mundo, esteja como estiver.
Alguém provavelmente terá que começar de novo.
E esse alguém, com as mãos sujas de entulho e os olhos cheios de uma luz estranha,
será você.

A tempestade é um aviso.
O aviso é romântico.
E o romance é isto: a promessa louca e lúcida de que mesmo depois do fim,
há um início que vale a pena ser vivido.
Com os pés na lama, com o coração batendo forte, com a coragem frágil e invencível
de quem sobreviveu ao vento e descobriu que, no fundo,
é feito da mesma matéria das tempestades.

Um poema em processo de Wagner Merije

THE ROMANTIC WARNING OF THE STORM

This is no longer the wind we knew – the one that rocked the hammock and carried the scent of ripe mango trees.
It is something else now.
Something that rises from the bowels of time with steel teeth and the roar of a cracked planet.
One hundred and forty, one hundred and sixty kilometres per hour – numbers that mean nothing until you see the hundred-year-old tree bend like a green twig,
until you hear the roof sing its farewell in C minor,
until you feel the house breathe, expand, tremble at the joints like a frightened animal.

The dawn will be swept away.
Not cleaned, not purified – swept.
Like someone wiping a canvas with a sleeve, like someone discarding a poorly told story.
What comes after will not be the same dawn. It will be another. With scars in the air, with the memory of destruction in the broken branches.

And the rain – ah, the rain!
It is not the rain of poets, the kind that falls gently to rhyme with longing.
It is a cold, hard rain, vertical as a sentence.
It falls with the desire to pierce the soil, to reach the centre of the earth, to wash even the bones of the dead.
It falls as if it were the last. As if it knew that after it there will be only silence or fire.

They have activated the Emergency Plan.
I like that word: emergency. From the Latin emergere – “to rise from the waters”, “to come to the surface”.
That is what this is about: to emerge. To cease being what we were and become what survives.
There are protocols, stamped papers, sirens with recorded voices.
There are serious men in rooms with flickering maps and screens.
There is a logistics for the end of the world, meticulous and bureaucratic.
Even the apocalypse has its paperwork.

They have closed the schools.
The empty desks wait.
The blackboard holds the last unsolved equation.
In the corridor, a forgotten lunch wrapped in cling film.
The children are at home, listening to the sound of the world collapsing and thinking, with the fierce logic of the small:
“If they closed the school, it must be serious indeed.
Adults only close the school for things very important or very dangerous.”
And this storm is both.

The order is: protect yourselves!
But how do we protect ourselves from what comes from within and without at the same time?
How do we raise walls against the wind that already inhabits our lungs?
How do we close windows to the rain that already runs in our veins?

Protect yourselves.
Bury yourselves in the cellars of the flesh.
Close the doors of your bones.
Plug your ears with the wax of good memories.
Kneel on the firmest ground you can find – which may be an old love, a word kept safe, the hand of a child in the dark.
Because the wind of one hundred and sixty per hour does not want only to topple trees.
It wants to topple certainties.
The hard rain does not want only to flood streets.
It wants to flood the cellars of the soul where we keep what we do not wish to see.

I tell you: this storm is romantic.
Yes, romantic in the most obscure and true sense.
It does not come only to destroy, but to reveal.
To show that beneath the asphalt there is earth.
Beneath the calm there is panic.
Beneath life there is death, and beneath death there is more life, brave and stubborn.

The wind writes furious love letters on the walls.
The rain sings an opera about all we have lost.
And at the centre of the hurricane, there is an eye – a round and perfect silence where everything stops.
It is there, in the eye of the storm, that you remember your own name.
That you see, clearly, what matters and what is merely passing wind.

So protect yourselves, yes.
But protect also the fragile flame that is within you.
The one that trembles, but does not go out.
Because after the winds of one hundred and sixty have passed,
after the hard rain has said all it had to say,
someone will have to wake and look upon the world, whatever its state.
Someone will likely have to begin again.
And that someone, with hands dirty from rubble and eyes full of a strange light,
will be you.

The storm is a warning.
The warning is romantic.
And the romance is this: the mad and lucid promise that even after the end,
there is a beginning worth living.
With feet in the mud, with the heart beating strong, with the fragile and invincible courage
of one who survived the wind and discovered that, at bottom,
they are made of the same substance as the storms.

A poem in process by Wagner Merije

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Trovar a Liberdade — Um encontro criativo com o legado de Zeca Afonso


20 nov

Trovar a Liberdade com Zeca Afonso propõe um mergulho sensível e vigoroso no universo de uma figura maior da música e da resistência em Portugal. O espetáculo recupera a força poética, a inquietação ética e a pulsação humana da sua obra, revelando a atualidade das suas palavras e melodias num tempo que continua a convocar a liberdade e o pensamento crítico.

Recorrendo a uma combinação de declamação, interpretação vocal e ambiente sonoro imersivo, Trovar a Liberdade com Zeca Afonso convida o público a escutar Zeca com novos ouvidos e a reencontrar, nos seus versos, a esperança e a coragem que atravessam gerações.

A direção artística e a composição da trilha sonora são assinadas por Wagner Merije, que constrói uma atmosfera contemporânea, íntima e emocionalmente envolvente, sustentando cada momento com sensibilidade e respeito pelo espírito original da obra de Zeca Afonso.

A interpretação de Fernando Franco, intensa e profundamente expressiva, dá corpo e voz aos poemas e canções, criando um espaço vivo de memória e reinvenção.

Trovar a Liberdade com Zeca Afonso é um tributo luminoso a um criador essencial, mas é também um convite à reflexão, ao encontro e ao gesto de manter viva a chama da liberdade — nas artes, na sociedade e na vida.

O espetáculo faz parte da programação do prestigiado Ciclo Orphika 2025 da Universidade de Coimbra.

Local: Liquidâmbar – Praça da República – Coimbra, Portugal
Data e horário: 25 de novembro de 2025 — 21h30
Entrada livre

Realização: Motivos Alternativos & Aquarela Brasileira

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Zeca Afonso entre Coimbra e Setúbal: um reencontro poético e musical


24 out

Entre as cidades de Coimbra e Setúbal, em Portugal, dois lugares que marcaram profundamente a vida e a arte de José Afonso, nasce um espetáculo que celebra o homem, o poeta e o símbolo da liberdade.

“Zeca Afonso entre Coimbra e Setúbal” é um projeto performativo que presta homenagem a uma das figuras mais inspiradoras da cultura portuguesa do século XX. Através de uma abordagem contemporânea e sensível, o espetáculo convida o público a revisitar o universo de Zeca, unindo música, palavra e emoção num diálogo vivo entre passado e presente.

Com declamação e interpretação vocal de Fernando Franco e composições musicais e arranjos de Wagner Merije, o espetáculo propõe uma leitura renovada da obra de Zeca Afonso, incluindo poemas pouco conhecidos e nunca musicados e até textos inéditos criados especialmente para esta homenagem.
Entre sons, versos e imagens, o público é conduzido por uma viagem afetiva que liga o fado de Coimbra — raiz da sua criação — à canção de intervenção e à liberdade cantada em Setúbal.

Zeca nasceu em Aveiro (1929), estudou e viveu longos anos em Coimbra, cidade onde ensaiava no Grémio Operário, poucos metros da sua casa na Rua da Ilha, junto à Sé Velha. Em Setúbal, onde viveu a partir de 1967, fundou o Círculo Cultural de Setúbal, importante centro de resistência e criação artística. Faleceu na mesma cidade, em 1987, e hoje é lembrado na Casa da Cultura de Setúbal, cujo auditório leva o seu nome — Sala José Afonso.

“O fado de Coimbra é a raiz de toda a música do Zeca”, afirmou Teresa Alegre Portugal — e é precisamente essa raiz que o espetáculo recupera, para transformar em flor e futuro.

Datas e locais
Sábado, 1 de novembro de 2025Casa da Cultura de Setúbal
Domingo, 2 de novembro de 2025Grémio Operário de Coimbra

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Poesia e Jornalismo em Convergência: Wagner Merije na Antologia Palavra Mineral


20 abr

Há lugares em que as palavras são ferramenta. Noutros, são flechas, abrigo, insígnia. No caso de Palavra Mineral, antologia inédita que reúne versos de 56 jornalistas mineiros, as palavras se tornam poesia — com a força da rocha e a fluidez do pensamento.

Wagner Merije integra este painel plural, poético e potente. Reconhecido por sua atuação como jornalista, escritor, músico e criador multimídia, Merije reforça nesta obra sua veia literária, ao lado de autoras e autores que, como ele, fizeram da palavra sua profissão e sua paixão.

Organizada por Carlos Barroso, presidente da Casa de Jornalista, a antologia lança luz sobre a relação simbiótica entre jornalismo e poesia, revelando como a precisão de um pode alimentar o lirismo do outro.

Trata-se de uma obra importante e oportuna, que conta com estilos variados, gerações múltiplas e vozes que ecoam de Minas ao mundo.

Mais do que responder à pergunta sobre como a notícia encontra o verso, o livro convida à leitura atenta das intersecções — e fraturas — entre o factual e o sensível. “Será possível observar um paralelo instigante entre o fazer poético e o fazer jornalístico”, afirma o organizador.

O livro “Palavra Mineral”, de poetas jornalistas, inaugura o selo “Casa de Jornalista Editora”. A antologia foi editada em parceria com a editora Literíssima.

O lançamento será no dia 24 de abril, das 19h às 22h, na Casa de Jornalista, em Belo Horizonte (Av. Álvares Cabral, 400, Centro).
Uma noite para celebrar o verbo em estado mineral — lapidado por quem vive da escuta, do olhar atento, da escrita viva.

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Nereida Encontros Internacionais de Música e Poesia


16 maio

Wagner Merije participa do Nereida – Encontros Internacionais de Música e Poesia, com duas atuações: uma conversa sobre poesia e edição durante a Aquarela Sessions, e apresentação da dupla Ulysses & Orpheu, ao lado do poeta portugués, Hélder Grau Santos.

Vai ter música e poesia e a entrada é livre, em meio ao belo Jardim da Sereia, em Coimbra, Portugal.

Mais informações: faleaquarela@gmail.com

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Salomé+O Vencedor do Tempo_Fernando Pessoa


13 nov

Salomé+O Vencedor do Tempo_Fernando Pessoa_capa promo

 

 

Foto de Wagner Merije para o livro de Fernando Pessoa

Saiba mais em

www.aquarelabrasileira.com.br/salome-o-vencedor-do-tempo-fernando-pessoa

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Gira Gira Mundo


11 nov

A Aquarela Brasileira Multimedia orgulhosamente apresenta um programa mui divertido como um teatro de variedades.

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Gira Gira Mundo é um projeto multimedia que une música, literatura e imagens numa celebração ao encontro de pessoas de diferentes nacionalidades que co-criam em Coimbra.

 

 

Programa

Audiovisuais

The Body Poets – Grocery Store

The Wikidrummer

Japanese Collective Electronicos Fantasticos

Say She She – Questions

Suprasensorial – Deus criou o beat

The Cat Tale

Circum-Natação, o teaser

 

Literatura

 Apresentação do livro Circum-Natação, com presença do autor Hélder Grau Santos (Asa de Borboleta)

Poemas com Jazz com Rita Gomes e Sónia Gonçalves

 

Música

Blarmino

Dj Suprasensorial

 

Palavras pela Paz

 

 Data:16/11/2023 – Quinta-feira

Horário: a partir das 21:00 horas

Local: Liquidâmbar – Praça da República nº 28 1º – Coimbra – Portugal

Entrada: Livre

Entidade Organizadora: Aquarela Brasileira

Informações: faleaquarela@gmail.com

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Ulysses & Orpheu – 5 anos de Poesia e de Experiências Artísticas


31 out

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O duo Ulysses & Orpheu atua em palcos intimistas desde 2018. Após 5 anos de estrada, entre Brasil e Portugal, este projeto apresenta agora um espetáculo comemorativo através duma atuação multidisciplinar (música, poesia, imagem, teatro).

Na Mitologia Grega, Orfeu é o símbolo por excelência das artes poéticas e musicais. Além de poeta, Orfeu era músico e cantor. Seu pai lhe presenteou com uma lira, o que o transformou num dedicado músico. Assim, quando a tocava, qualquer pessoa ficava encantada e tranquila com sua melodia. Além de seres humanos, os animais e a natureza no geral (árvores, rios, lagos, etc.) ficavam fascinados ao som de suas notas. A viagem que Orfeu, filho de Apolo e da musa Calíope, faz ao Além, em busca da amada Eurídice, representa a própria dimensão iniciática da Música, uma potência divina destilada por humanos corações.

Foi Homero, poeta grego, quem contou no seu livro Odisseia as façanhas de Ulisses, rei de Ítaca, adorado por todos os que o conheciam. Muitas e estranhas foram as viagens que fez à volta do mundo de então e de si próprio. A sua fama correu de boca em boca e todos o consideravam como o mais manhoso dos mortais e o mais valente marinheiro. Grande parte da sua vida, passou Ulisses navegando de aventura em aventura, por entre Ciclopes e Sereias encantatórias ou tentando libertar-se da misteriosa Feiticeira Circe para regressar à sua fiel Penélope. Diz-se que, nesses tempos de antigamente, não houve homem que mais sofresse e mais feliz fosse do que o espantoso Ulisses.

 

Info – faleaquarela@gmail.com

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Wagner Merije faz conferência no Folio 2023_Festival Literário Internacional de Óbidos


14 out
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O escritor, editor, jornalista e investigador da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Wagner Merije, é um dos convidados do Folio 2023, Festival Literário Internacional de Óbidos, Portugal.
No Castelo de Óbidos, em Portugal, no dia 14/10/2023, dentro da programação do Folio Educa, Wagner Merije faz uma conferência sobre os escritores José Saramago e Ignácio de Loyola Brandão.
O evento acontece na Óbidos Chocolate House e tem entrada livre.

17h00 \\\ FOLIO EDUCA

Conferência: José Saramago e Ignácio de Loyola Brandão: Lições do precipício – Uma conversa sobre utopia e distopia
Saiba mais aqui em 14 Outubro 2023 | Folio Festival

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Canção do Exílio


06 set

Canção do Exílio_07092023

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Merije

Vlog do Wagner Merije


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