O Livro como Campo de Batalha: meu novo artigo no Boletim da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra

27 ago

É com grande satisfação que partilho a publicação do meu mais recente artigo, “Cartografia dos Poder(es): O Livro como Território de Disputa no Universo Lusófono”, no volume 55 (2025) do Boletim da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

A convocatória para este volume, subordinada ao tema «História do Livro e da Edição: objetos, problemas e rumos», sob a coordenação do Professor Nuno Medeiros, proporcionou o espaço perfeito para desenvolver uma reflexão que há muito me acompanha: a de que o livro é muito mais do que um objeto cultural ou uma mercadoria. Ele é, antes de tudo, um campo de poder.

O que o artigo propõe

Neste trabalho, investigo a interseção entre livro e poder(es) ao longo da história da edição lusófona. A pergunta que orienta a pesquisa é: como estruturas económicas, estratégias editoriais e escolhas simbólicas moldaram não apenas o que lemos, mas como lemos?

A análise articula o paradigma do “livro como negócio” — com a sua lógica de concentração, lucro e padronização — com a sua dimensão de agente de resistência cultural. Examino casos concretos de controvérsias editoriais, censura, a formação do mercado e a circulação de ideias críticas, sempre com um olhar atento ao universo lusófono.

Um olhar interdisciplinar sobre o livro e o poder

Através de uma abordagem que combina história editorial, sociologia da literatura e teoria cultural, procurei revelar os mecanismos subtis de poder incorporados no objeto-livro, desde o mecenato régio e a censura inquisitorial até à concentração dos conglomerados editoriais contemporâneos e ao domínio das plataformas digitais.

A conclusão a que chego é que, no espaço lusófono, o livro deve ser compreendido como um território em disputa permanente, atravessado por interesses políticos, económicos e ideológicos, mas também como um lugar de invenção cultural e de resistência.

Acesso e leitura

O artigo está disponível em acesso aberto e pode ser lido na íntegra através do link:
 https://impactum-journals.uc.pt/bbguc/article/view/17162

A publicação completa deste volume do Boletim também pode ser acedida em:
 https://impactum-journals.uc.pt/bbguc/issue/view/1071/525

Agradeço desde já a todos os que se interessarem pelo tema. A reflexão sobre o livro e o poder é, a meu ver, uma reflexão sobre o futuro das nossas sociedades e da memória coletiva.

Fico à disposição para diálogos e comentários. Boas leituras!

Wagner Merije (Wagner Rodrigues Araújo)
PHD (Doutor) em Letras pela Universidade de Coimbra

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Saudade em Palavras: O livro que a língua portuguesa esperava

26 ago

Uma antologia sobre o que a língua portuguesa insiste em nomear sem nunca encerrar

Este livro não é um dicionário. Não é um tratado. É uma reunião de aproximações — uma liturgia leiga do que fica. Palavras que tentam tocar o intocável. Textos que, em vez de explicar a saudade, a rodeiam, a sentem, a deixam respirar.

Saudade em Palavras é uma antologia que se propõe a dar forma ao que, por natureza, resiste à forma. Reúne ensaios, poemas, contos, memórias e imagens que revelam a saudade como uma presença que se faz ausência, como o amor que continua depois da perda.

Para este exercício de traduzir o intraduzível, foram reunidas vozes plurais de Portugal, Brasil, Angola, Chile e Itália: Marcia Langfeldt, Rita Gomes, Rômulo Garcias, João Diniz, Hélder Grau Santos, InVerso (Neno del Castillo/Sonia Salcedo), Filomena Ferreira, Rita Pereira, Clotilde Bernal, Tiago de Souza, Letícia Junqueira, Sónia Gonçalves Nunes, Maria Camarão, Maria João Pereira, Filipa Laranjeira, Giacomo Gregori, José Luis Alves, António Costa Pereira, Sara Oportus, Ssel Marquesa Selvagem e Wagner Merije. Reforçam o time vozes consagradas como Fernando Pessoa, Clarice Lispector, William Shakespeare, Charles Baudelaire, Sarah Orne Jewett e Camilo Castelo Branco.

Abre o livro um breviário poético que percorre a saudade na filosofia, na ciência, na literatura e nas palavras de outras culturas: o hüzün turco, o dor romeno, o hiraeth galês, o mono no aware japonês. Seguem-se histórias de avós que se tornam mitos familiares, de infâncias que sobrevivem na memória, de amores que insistem em habitar o presente. Cada texto é uma aproximação — uma tentativa de desenhar o vento.

A neurociência confirma o que os poetas sempre souberam: a saudade ativa no cérebro as mesmas regiões associadas à dor física e à memória emocional. Sentimo-la como sentimos fome — uma fome de presença.

De Fernando Pessoa a Marcel Proust, de Siri Hustvedt a José Saramago, esta obra recorda-nos que a saudade é, afinal, a forma mais verdadeira de amor — porque só se sente falta do que realmente importa. Só se chora o que se amou. Só se guarda o que não se quer perder.

Coleção Em Palavras

Este livro integra a Coleção Em Palavras, um espaço editorial que reúne autores de diferentes histórias, nacionalidades e gerações. O propósito da coleção é celebrar a diversidade de sensibilidades, abrindo caminho para novas ideias e novos diálogos. Cada livro é um convite a olhar o mundo com outros olhos.

Títulos da coleção: São Paulo em PalavrasSão Luís em PalavrasCoimbra em PalavrasSaudade em Palavras. Em breve: Lisboa em PalavrasFutebol em Palavras.

Sobre o organizador

Wagner Merije é PhD em Letras pela Universidade de Coimbra, jornalista, escritor e editor. Fundador da Aquarela Brasileira Livros, dedica-se à Curadoria de Legado — transformar trajetórias, memórias e sentimentos em livros que ficam. Organizou esta antologia com a convicção de que a saudade, mais do que um sentimento, é um território a ser explorado e partilhado.

Dados do livro

Título: Saudade em Palavras
Autores: Diversos
Editora: Aquarela Brasileira Livros
Género: Ensaios, Contos, Poemas, Memórias, Afeto
Formato: 14×21 cm
Número de páginas: 108
Web: www.aquarelabrasileira.com.br/saudade-em-palavras
Encomendas: faleaquarela@gmail.com

Aquarela Brasileira Livros

Curadoria de Legado

Não é só sobre contar histórias. É sobre eternizá-las.

Brasil — Portugal

www.aquarelabrasileira.com.br/ab-books

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Wagner Merije na 47ª Feira do Livro de Coimbra

15 jun

Wagner Merije marca presença na 47ª Feira do Livro de Coimbra com uma participação ativa em quatro eventos que atravessam diferentes momentos da literatura portuguesa e brasileira.

Como editor, organizador e autor, Merije conduz conversas, apresentações e leituras que reafirmam o diálogo entre Brasil e Portugal — um dos pilares do seu trabalho à frente da Aquarela Brasileira Livros.

Sexta-feira, 19 de junho

16h00 – Auditório Teolinda Gersão
Apresentação da nova edição da antologia Coimbra em Palavras
Conversa entre Élia Ramalho e Wagner Merije (organizador da obra).

A antologia reúne 34 autoras e autores de todos os continentes para celebrar a cidade de Coimbra em prosa, poesia e memória.

Terça-feira, 23 de junho

17h15 – Auditório Teolinda Gersão
O Poeta e a Poesia | Viva os Poetas de Portugal
Apresentação da antologia de poesia Breve, de João Cochofel
Conversa entre Rui Amado e Wagner Merije (editor da obra).

Breve celebra o centenário do poeta português João José Cochofel, reunindo o essencial da sua lírica, publicada pela primeira vez no Brasil pela Aquarela Brasileira.

Quarta-feira, 24 de junho

18h00 – Estação Elevatória de Coimbra – Biblioteca Carlos Fiolhais
Apresentação do livro Um Furacão em Lisboa
Apresentação: Paulo Branco Lima (escritor e investigador literário).

O romance escrito por Wagner Merije, inspirado em fatos reais, entrelaça música, cultura pop e a presença de Madonna em Portugal, com Lisboa como pano de fundo.

Quinta-feira, 25 de junho

18h00 – Estação Elevatória de Coimbra – Biblioteca Carlos Fiolhais
Leitura de Sonetos, de Luís de Camões
Por Rita Marnoto (Universidade de Coimbra)
Moderação: Wagner Merije (editor da obra).

Uma sessão dedicada à leitura e celebração do legado lírico de Camões, com curadoria da Aquarela Brasileira.

Sobre a Feira

A 47ª Feira do Livro de Coimbra homenageia a escritora Teolinda Gersão, com o mote “A árvore das palavras”. O programa distribui-se por cinco espaços – Auditório Teolinda Gersão, Estação Elevatória de Coimbra – Biblioteca Carlos Fiolhais, Esplanada, Coreto e Espaço Crianças e Famílias – e inclui 90 atividades, exposições, concertos, debates e sessões de poesia.

A Aquarela Brasileira, editora fundada e dirigida por Wagner Merije, integra esta edição com autores, livros e a certeza de que a literatura é uma das mais poderosas pontes entre nações.

Serviço

Evento: 47ª Feira do Livro de Coimbra
Datas: 19 a 28 de junho de 2026
Local: Parque Manuel Braga, Coimbra – Portugal
Horário: diariamente, das 11h00 às 22h00
Entrada: livre
Programa completo: https://www.coimbra.pt/wp-content/uploads/2026/06/47_FeiraLivroCoimbra_Programa.pdf

feiradolivrodecoimbra.pt

Wagner Merije
PhD em Letras | Escritor | Editor

Aquarela Brasileira – Curadoria de Legado
Não é só sobre contar histórias. É sobre eternizá-las.

www.merije.com.br | www.aquarelabrasileira.com.br
faleaquarela@gmail.com

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O que é escrever literatura?

24 maio

Wagner Merije marcou presença na Oficina de Escrita e Leitura “O que é escrever literatura?”, dinamizada pelo professor, poeta, ensaísta e crítico literário português António Carlos Cortez, na Casa da Escrita, em Coimbra, Portuga.l.

A iniciativa, promovida no âmbito das Oficinas e Mediação, reuniu participantes em torno de uma reflexão profunda sobre o fazer literário, os seus limites e as suas possibilidades — um encontro entre a teoria e a prática da palavra escrita.

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Vem aí um projeto transformador: A Cultura como Estratégia – A Nova Geopolítica do Soft Power

27 abr

O mundo está mudando — e a cultura deixou de ser apenas expressão para se tornar estratégia. É nesse contexto que nasce “A Cultura como Estratégia: A Nova Geopolítica do Soft Power”, um projeto de Wagner Merije que convida os leitores e leitores a enxergarem o cenário global sob uma nova perspectiva.

Essa é uma jornada de análise e reflexão sobre como ideias, narrativas e símbolos moldam o poder no século XXI. Aqui, cultura não é pano de fundo — é protagonista.

Ao longo do projeto, você vai encontrar:

  • Análises profundas sobre cultura, influência e poder
  • Conexões entre passado, presente e futuro, revelando padrões e rupturas
  • Tendências e estratégias para compreender o mundo contemporâneo
  • Uma visão global, sem perder identidade e propósito

Vivemos em uma era em que influência vale mais do que imposição. O chamado soft power redefine fronteiras, reposiciona nações e impacta decisões em escala global — muitas vezes de forma silenciosa, mas extremamente eficaz.

Este projeto é um convite para entender esse jogo.

Acompanhe conteúdos inéditos toda semana
Acesse: Merije

Conhecimento. Visão. Influência.
O futuro é cultural.

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Cultura, arte e bem-estar: Aquarela Brasileira promove agenda em Portugal com curadoria da Merije

26 abr

A Aquarela Brasileira realiza, entre maio e junho de 2026, uma programação cultural em Portugal que integra diferentes linguagens artísticas e propõe experiências de conexão entre Brasil e Portugal. Com atividades concentradas em Coimbra e na região da Serra do Açor, a agenda reúne música, literatura, encontros performativos e uma imersão voltada ao bem-estar.

Abrindo a programação, no dia 3 de maio, acontece “Entre a Matéria e a Voz”, com Ulysses & Orpheu, duo formado por Hélder Grau Santos e Wagner Merije, e a participação de Pedro Góis. A proposta transita entre música e palavra, explorando a relação entre som, presença e expressão artística em um formato intimista.

Ainda no mês de maio, entre os dias 28 e 31, acontece o Retiro Bem-Estar na Aldeia, na Serra do Açor. A experiência convida à desaceleração e ao reconectar-se com a natureza por meio de práticas integrativas, convivência e silêncio. A programação cultural do retiro é assinada pela Merije, que propõe uma curadoria sensível voltada à escuta, à presença e ao encontro.
Mais informações e inscrições: Retiro Bem-Estar na Aldeia

Em junho, a agenda segue com o VII Festival Sons, Saberes e Sabores da Lusofonia, de 12 a 14, no Terreiro da Erva, em Coimbra. O evento celebra a diversidade cultural dos países de língua portuguesa por meio da música, da gastronomia e de diferentes expressões artísticas. Wagner Merije apresenta seus livros.

Encerrando a programação, a Aquarela Brasileira participa da 47ª Feira do Livro de Coimbra, entre os dias 19 e 28 de junho, reforçando o diálogo com a literatura e promovendo encontros entre autores, leitores e iniciativas culturais. Wagner Merije recebe autores para conversas saborosas e apresentações de livros.

As iniciativas evidenciam o papel da cultura como ferramenta de integração e criação de vínculos, ao mesmo tempo em que amplia o olhar para experiências que atravessam arte e bem-estar.

Mais do que uma agenda de eventos, a iniciativa reforça o papel da cultura como ponte entre territórios, promovendo integração, pertencimento e troca de experiências entre Brasil e Portugal.

Mais informações em www.aquarelabrasileira.com.br

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Nasce o projeto Auto-Estima Social Club

21 abr

Nasce um lugar onde a música cura, a comida une e a autoestima floresce.

Uma cantora brasileira.
Um músico indiano.
Duas crianças cheias de talento.
Um bar esquecido na periferia.

O que parecia apenas uma herança problemática transforma-se num movimento que muda vidas.

AUTO-ESTIMA SOCIAL CLUB
Uma série musical sobre esperança, comunidade e recomeços.

Quando a música começa, ninguém fica de fora.
Quando a comida chega, histórias se encontram.
Quando a autoestima cresce, tudo muda.

Esta não é apenas uma história.
É um convite.

Em breve, o primeiro episódio em www.merije.com.br

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Entre a Matéria e a Voz: Ulysses & Orpheu no encontro entre corpo, som e arte

15 abr

Quando a arte deixa de ser apenas contemplação e passa a ser experiência sensorial, nasce um território raro onde corpo, voz, matéria e presença se encontram. É precisamente nesse espaço que se inscreve o projeto “Entre a Matéria e a Voz”, uma proposta artística que reúne diferentes linguagens e sensibilidades num diálogo vivo entre criação visual, performance e som.

Integrando esta experiência, o duo Ulysses & Orpheu, formado por Hélder Grau Santos e Wagner Merije, participa com uma performance que cruza poesia, manifesto, música e presença cênica, ampliando a dimensão sensorial e simbólica do evento. A proposta do duo nasce da palavra como matéria viva e da música como gesto de resistência e beleza.

Mais do que uma apresentação, trata-se de uma travessia estética onde o público é convidado a escutar o invisível, sentir o silêncio e perceber como a arte pode devolver intensidade ao tempo e profundidade ao instante. A voz deixa de ser apenas som; torna-se corpo. O corpo deixa de ser apenas presença; transforma-se em linguagem.

A participação de Wagner Merije neste projeto reafirma o seu percurso multidisciplinar entre literatura, música, performance e criação contemporânea, consolidando uma pesquisa artística que procura romper fronteiras entre linguagens e aproximar arte e experiência humana.

Ao lado de Hélder Grau Santos, no percurso de Ulysses & Orpheu, esta presença reforça também a identidade de um duo que tem construído, entre Portugal e Brasil, um trabalho singular de experimentação poética e musical, em palcos intimistas e encontros culturais de forte densidade estética.

“Entre a Matéria e a Voz” surge assim como mais do que um evento: uma convocação à escuta, à contemplação e à redescoberta da arte como espaço de encontro, com a participação especial de Pedro Góis e seu gesto pictórico.

Uma celebração do gesto, da palavra e daquilo que ainda resiste ao ruído do mundo.

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Vento leve, vento cru_Gentle wind, cruel wind

28 fev

Leva-me, vento leve, mas não me leves inteiro.
Deixa ficar aqui os pés que ainda querem chão,
as mãos que ainda tateiam o escuro em busca de outra mão,
o coração que insiste em ser órgão, não metáfora.

Cabeça e tronco separados — essa é a invenção moderna:
a cabeça voando em direção aos lucros,
o tronco arrastado pelas dívidas,
e entre eles, um vão onde a alma deveria estar
mas está alugada, hipotecada, vendida em prestações
a juros compostos e consciência pesada.

Mente e alma, essa antiga dualidade barata —
como se a mente fosse o escritório e a alma o depósito,
como se uma pudesse funcionar sem a outra,
como se a contabilidade da vida coubesse em partidas dobradas.

Não é propriamente meu esse desequilíbrio.
Não fui eu quem separou o pensar do sentir,
quem fez do afeto um produto,
da alegria uma meta a ser atingida com metas,
da tristeza uma doença a ser medicada em três doses diárias.

Inventivamente inventaram isso em mim.
Com que fineza de navalha, com que precisão cirúrgica
me inseriram a culpa como um chip,
me programaram o desejo como um algoritmo,
me venderam a felicidade como um pacote de milhagem
que expira antes da viagem.

Oh, sábios detratores, doutores do rebaixamento,
vós que trabalhais para companhias excusas
— aquelas sem rosto, sem sede, sem vergonha —,
vós que fazeis do rebaixamento um ofício
e da mediocridade alheia vosso salário.

Conheço-vos bem.
Sois os mesmos que crucificaram o profeta e venderam a cruz como relíquia.
Os mesmos que silenciaram o poeta e depois lhe compraram os versos por metro.
Os mesmos que fizeram do sol uma lâmpada a ser paga no fim do mês.

Trabalhais, sim, trabalhais:
no turno da manhã, espalhais a notícia de que o bem é ingenuidade;
no turno da tarde, ensinais que o amor é negócio mal administrado;
no turno da noite, escreveis os relatórios que justificam
deixar os bons por baixo, sempre por baixo,
como carpete, como alicerce, como terra onde os palácios se erguem.

E vende-se, vende-se, vende-se:
vende-se logo um medicamento para a tristeza de existir,
vende-se a alma em kit de autoconhecimento,
vende-se flores no dia em que o amor é obrigatório,
vende-se caixões em parcelas que cabem no bolso,
vende-se documentos que provam que você é você
— por apenas trinta reais, promovemos seu esquecimento.

Tudo se vende, tudo tem preço:
o choro da criança que quer colo vira transtorno de apego,
a revolta do jovem que não aceita o mundo vira crise de identidade,
a exaustão do trabalhador vira síndrome,
a solidão do velho vira doença neurodegenerativa.

Há sempre um comprimido, sempre um laudo, sempre um diagnóstico.
Há sempre uma empresa, sempre um lobby, sempre uma campanha.
Há sempre uma maneira de transformar a dor em lucro,
a vida em consumo,
a morte em oportunidade de negócio.

Mas eu, vento leve, eu te peço:
leva-me não para longe, mas para dentro.
Para o centro exato onde ainda não chegaram os vendedores.
Para o santuário íntimo que ainda não foi zoneado,
patenteado, leiloado, rateado entre acionistas.

Leva-me para aquele lugar onde a cabeça e o tronco ainda conversam,
onde a mente e a alma ainda se reconhecem como irmãs siamesas
— separá-las seria a morte de ambas.

E de lá, deste ponto cego do mercado,
desta bolha de ar no grande oceano das mercadorias,
deixa-me ver o mundo como ele é:
não como me vendem, não como me convencem,
mas como ele geme nas suas fundações
esperando que alguém, um dia,
recuse o medicamento e aceite a cura,
recuse a alma empacotada e aceite o vazio criador,
recuse as flores murchas do calendário
e plante no chão úmido da própria carne
a semente do que ainda pode ser.

Porque os bons estão por baixo, sim.
Mas é por baixo que as raízes crescem.
É por baixo que a terra fermenta.
É por baixo que o mundo, quando rui,
encontra o chão firme para recomeçar.

Vento leve, vento justo,
leva-me, sim.
Mas leva-me para o fundo.
Para o subsolo da existência.
Para onde os vendedores não descem
porque não há lucro, não há escala, não há retorno.

E de lá, deste aquário escuro e fértil,
deixa-me subir — não como produto,
não como alma à venda,
não como consumidor satisfeito —,
mas como testemunha.
Como aquele que viu o sistema por dentro
e preferiu o desequilíbrio sagrado
à equilíbrio morto dos que se vendem inteiros.

Leva-me, vento.
Mas deixa que eu volte.
Com os pés no chão,
com a cabeça nos ombros,
com a alma onde sempre esteve
— escondida, sim,
mas não à venda.

Um poema de Wagner Merije

Take me, gentle wind, but do not take me whole.
Leave here the feet that still want ground,
the hands that still grope the dark in search of another hand,
the heart that insists on being organ, not metaphor.

Head and trunk separated — that is the modern invention:
the head flying toward profits,
the trunk dragged by debts,
and between them, a void where the soul should be
but is rented, mortgaged, sold in installments
with compound interest and heavy conscience.

Mind and soul, that ancient cheap duality —
as if the mind were the office and the soul the warehouse,
as if one could function without the other,
as if life’s accounting fit into double-entry books.

This imbalance is not properly mine.
It was not I who separated thinking from feeling,
who made affection a product,
joy a goal to be achieved with goals,
sadness a disease to be medicated in three daily doses.

Inventively they invented this in me.
With what finesse of razor, with what surgical precision
they implanted guilt in me like a chip,
programmed desire in me like an algorithm,
sold me happiness like a mileage package
that expires before the journey.

Oh, wise detractors, doctors of debasement,
you who work for shady companies
— those without face, without headquarters, without shame —,
you who make debasement a profession
and others’ mediocrity your salary.

I know you well.
You are the same who crucified the prophet and sold the cross as a relic.
The same who silenced the poet and later bought his verses by the meter.
The same who made the sun a lightbulb to be paid at month’s end.

You work, yes, you work:
on the morning shift, you spread the news that good is naivety;
on the afternoon shift, you teach that love is poorly managed business;
on the night shift, you write the reports that justify
keeping the good ones down, always down,
like carpet, like foundation, like earth where palaces rise.

And they sell, they sell, they sell:
they quickly sell a medication for the sadness of existing,
they sell the soul in a self-knowledge kit,
they sell flowers on the day love is mandatory,
they sell coffins in installments that fit in the pocket,
they sell documents proving you are you
— for just thirty reais, we promote your forgetting.

Everything is sold, everything has a price:
the cry of the child who wants to be held becomes attachment disorder,
the revolt of the young who won’t accept the world becomes identity crisis,
the worker’s exhaustion becomes syndrome,
the old person’s loneliness becomes neurodegenerative disease.

There is always a pill, always a report, always a diagnosis.
There is always a company, always a lobby, always a campaign.
There is always a way to turn pain into profit,
life into consumption,
death into business opportunity.

But I, gentle wind, I ask you:
take me not far away, but inward.
To the exact center where the sellers have not yet arrived.
To the intimate sanctuary not yet zoned,
patented, auctioned, divided among shareholders.

Take me to that place where head and trunk still converse,
where mind and soul still recognize each other as Siamese twins
— to separate them would be the death of both.

And from there, from this blind spot of the market,
from this air bubble in the great ocean of commodities,
let me see the world as it is:
not as they sell it to me, not as they convince me,
but as it groans in its foundations
waiting for someone, someday,
to refuse the medication and accept the cure,
to refuse the packaged soul and accept the creative void,
to refuse the wilted flowers of the calendar
and plant in the moist soil of one’s own flesh
the seed of what may still be.

For the good ones are down below, yes.
But it is down below that roots grow.
It is down below that earth ferments.
It is down below that the world, when it crumbles,
finds firm ground to begin again.

Gentle wind, just wind,
take me, yes.
But take me to the depths.
To the basement of existence.
To where the sellers do not descend
because there is no profit, no scale, no return.

And from there, from this dark and fertile aquarium,
let me rise — not as product,
not as soul for sale,
not as satisfied consumer —,
but as witness.
As one who saw the system from within
and preferred the sacred imbalance
to the dead balance of those who sell themselves whole.

Take me, wind.
But let me return.
With feet on the ground,
with head upon shoulders,
with soul where it has always been
— hidden, yes,
but not for sale.

A poem by Wagner Merije

DESCRIÇÃO DA IMAGEM:

Uma figura humana fragmentada flutua em um céu tempestuoso de tons cinza e prata. O corpo está dividido em três partes principais que não se tocam: a cabeça, transformada em um balão aerostático inflado por notas de dinheiro que escapam como ar quente; o tronco, que pende pesadamente como um sino de igreja rachado, com um badalo em forma de comprimido batendo silenciosamente contra suas paredes internas; e as pernas, que permanecem fincadas em um chão árido onde flores murchas crescem de cabeça para baixo, suas raízes expostas ao céu.

Ao redor da cabeça-balão, pequenas figuras sem rosto — os detratores — flutuam em nuvens escuras, segurando contratos e prescrições médicas que se desenrolam como serpentinas fúnebres. Eles sorriem com dentes que são cápsulas de remédio.

Do tronco-sino, um som silencioso escapa em ondas concêntricas, cada onda carregando palavras: “alma”, “flores”, “caixões”, “documentos” — que se dissolvem no ar antes de alcançar o chão.

No horizonte, uma linha tênue de luz separa o céu tempestuoso de uma planície infinita onde milhares de figuras minúsculas, de cabeças baixas, caminham em direção a um ponto de venda que brilha como uma cidade de papel.

O estilo é de uma gravura expressionista alemã — contrastes dramáticos, linhas angulares, texturas granuladas — com a precisão surrealista de um sonho de Kafka dirigido por Bergman.

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Wagner Merije entrevista Ignácio de Loyola Brandão em artigo na revista Criação & Crítica da USP

27 fev

O artigo O Escritor Viajante e os Caminhos da Escrita: Ignácio de Loyola Brandão e o Ofício das Ideias”, de autoria de Wagner Rodrigues Araújo (Wagner Merije), foi publicado na edição nº 43 (2026) da Revista Criação & Crítica, da Universidade de São Paulo (USP).

A Criação & Crítica está entre as mais importantes revistas científicas do Brasil e da América Latina no campo dos Estudos Literários, Culturais e Interartísticos. A edição atual, intitulada Ler e escrever a viagem”, reúne artigos que exploram a relação entre literatura, deslocamento e experiência, tema que dialoga diretamente com a trajetória do entrevistado.

Nesta entrevista inédita, Wagner Merije — PHD (Doutor) em Letras pela Universidade de Coimbra, com vasta atuação como investigador, escritor e editor, reconhecido por sua produção acadêmica em periódicos internacionais de alto impacto  — conduz uma conversa profunda com um dos maiores nomes da literatura brasileira contemporânea.

Ignácio de Loyola Brandão, autor de clássicos como Zero e Não verás país nenhum, entre outros títulos, membro da Academia Brasileira de Letras, reflete sobre sua formação em Araraquara, a influência do jornalismo em sua escrita e o papel da literatura como ferramenta de resistência e alargamento de consciência. Ao longo da entrevista, emerge a figura do escritor viajante”, que transforma a errância em matéria literária e a experiência em lucidez crítica.

A publicação deste artigo representa um marco na trajetória intelectual de Wagner Merije, que mais uma vez articula sua atuação como editor, escritor e pesquisador em torno de um tema central: a literatura como ponte entre culturas e como ofício de pensar o mundo.

Leia o artigo na íntegra aqui: https://revistas.usp.br/criacaoecritica/pt_BR/article/view/239308

Confira a revista completa aqui: https://revistas.usp.br/criacaoecritica/pt_BR/issue/view/13913

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Merije

Vlog do Wagner Merije


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